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Guia prático

Defendeu e agora? O que fazer nos primeiros 90 dias depois da defesa

Nos 90 dias após a defesa você deve fazer quatro coisas: cumprir o depósito institucional, atualizar o Currículo Lattes, mapear os recortes que viram artigo e decidir sobre a publicação em livro. Quem deixa esse período passar em branco costuma voltar ao assunto dois anos depois, com a pesquisa envelhecida.

Vinicius Augusto de SouzaVinicius Augusto de Souza28 de julho de 202612 min de leitura
Neste guia · 12 tópicos

O vazio depois da defesa

Ninguém avisa sobre isso, e quase todo mundo passa por isso.

Durante dois ou quatro anos a sua vida teve um eixo. Havia prazo, orientação, reunião de qualificação, cronograma. Você acordava sabendo o que precisava fazer, mesmo nos dias em que não queria fazer.

Aí a banca aprova, todo mundo cumprimenta, e no dia seguinte não há mais nada. Nenhum prazo, nenhuma cobrança, nenhum próximo passo definido. Para muita gente esse vazio é mais desconfortável que a reta final da escrita, e a reação natural é fugir dele: pegar disciplina nova, entrar em outro projeto, ocupar a agenda.

O problema é que a tese fica para trás nesse movimento, e ela ainda tem trabalho pendente. Pouco trabalho, mas com prazo real.

Semana 1: descanse, e depois organize arquivo

A primeira coisa depois da defesa é descansar de verdade. Não é conselho de autoajuda: é reconhecer que ninguém toma boa decisão exausto, e as decisões dos próximos meses importam.

A segunda é bem menos poética, e leva menos de uma hora.

  • Salve a versão final aprovada pela banca em dois lugares, sendo um deles fora do seu computador
  • Junte as figuras e tabelas nos arquivos originais, em alta resolução, na mesma pasta
  • Guarde uma cópia do termo de depósito que você assinou, ou vai assinar
  • Anote em algum lugar visível a data limite do depósito institucional
  • Apague as versões intermediárias, ou mova para uma pasta separada, para não confundir depois qual é a definitiva

O último item parece bobagem e não é. Descobrir dois anos depois que existem seis arquivos chamados tese-final e não saber qual foi o aprovado é situação mais comum do que se imagina.

Semanas 2 a 4: depósito e Lattes

O depósito institucional

Tem prazo definido pelo programa, e ele costuma ser curto. Atrasar gera pendência que pode travar a emissão do diploma, e resolver pendência de secretaria é sempre mais demorado do que evitar.

Ao assinar o termo, leia o que ele diz sobre publicação futura. Na maioria dos casos a licença é não exclusiva, o que deixa você livre para publicar a obra em livro depois. Algumas instituições pedem comunicação prévia em caso de publicação comercial, e algumas preveem embargo temporário para pesquisa com patente ou dado sensível.

Guarde uma cópia desse documento. Se você decidir publicar, ele vai ser a primeira coisa que a editora vai querer saber.

A atualização do Lattes

Faça na mesma semana, enquanto os dados estão frescos. Registre a titulação, a data da defesa, o título do trabalho, o nome do orientador e a banca.

É trabalho de meia hora agora, e de uma tarde inteira daqui a um ano, quando você não lembrar mais o nome completo do membro externo da banca.

Aproveite para conferir o resto do currículo. Disciplina ministrada, evento em que apresentou, capítulo publicado no meio do caminho. Coisa que ficou de fora durante o corre da escrita.

Mês 2: mapeie os recortes

Toda tese tem partes que funcionam sozinhas, e enquanto o trabalho ainda está vivo na sua cabeça, identificá-las custa pouco.

Sente com o sumário à frente e procure três tipos de recorte.

  • Um achado que responde a uma pergunta específica e se sustenta fora do conjunto
  • Uma solução metodológica que você desenvolveu e que outra pessoa poderia usar
  • Uma revisão que ninguém tinha feito daquele jeito, e que tem valor por si

Liste os recortes por escrito, com um parágrafo de descrição cada um. Daqui a seis meses essa lista vai valer ouro, e você não vai conseguir refazê-la de memória.

Mês 3: a decisão sobre o livro

Aqui vem a pergunta que muita gente adia por anos, e o adiamento raramente é decisão consciente. É só o assunto saindo da lista.

A resposta depende da sua área e do seu objetivo, e vale responder quatro perguntas antes de decidir.

Você vai prestar concurso nos próximos dois anos?

Se sim, a decisão fica bem mais simples. Prova de títulos olha produção bibliográfica, e livro autoral com ISBN costuma ser o item de maior peso individual na categoria.

Vale ler a tabela de títulos de um edital recente da carreira que interessa a você, mesmo que o próximo concurso ainda não tenha saído. As tabelas mudam pouco entre edições.

A sua área valoriza livro ou artigo?

Em Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Educação, Direito e Linguística, o livro é moeda forte. Em Exatas, Biológicas, Engenharias e boa parte da Saúde, o artigo pesa mais.

Isso não impede publicar os dois, e muita pesquisa rende ambos. Mas define onde investir primeiro, se houver que escolher.

O tema interessa a alguém além da banca?

Pesquisa com aplicação prática, com recorte regional forte ou com tema que aparece em debate público tende a encontrar leitor fora do circuito imediato. Isso muda o sentido de publicar.

Se o trabalho é de interesse estritamente interno a um subcampo pequeno, o livro ainda vale como produção, mas a expectativa de circulação deve ser calibrada.

Os seus dados envelhecem rápido?

Pesquisa empírica com recorte temporal, análise de política pública em vigor, estudo sobre tecnologia: tudo isso perde atualidade em pouco tempo.

Se é o seu caso, a janela para publicar sem precisar de atualização substancial é curta, e vale decidir logo.

O que acontece com quem adia

Vale descrever o padrão, porque ele se repete e quase ninguém se vê nele enquanto está acontecendo.

A pessoa defende, cumpre o depósito, atualiza o Lattes e decide pensar no livro depois, quando as coisas acalmarem. Vem uma disciplina nova, um projeto, uma seleção. O assunto sai da lista.

Dois anos depois sai um edital de concurso que exige produção bibliográfica dos últimos cinco anos. A pessoa procura a tese, encontra três arquivos com nomes parecidos, não acha as figuras em alta resolução, e descobre que a literatura da área avançou o suficiente para a revisão parecer datada.

O que era um ajuste de estrutura virou um projeto de atualização, com prazo de concurso correndo. E aí a decisão passa a ser tomada sob pressão, que é a pior condição possível.

Adiar não é uma decisão neutra que pode ser revertida depois sem custo. Cada mês acrescenta trabalho ao mesmo resultado.

Um calendário de 90 dias

PeríodoO que fazerQuanto tempo leva
Semana 1Descansar. Depois organizar arquivo final, imagens e termo de depósito1 hora de trabalho efetivo
Semanas 2 a 4Depósito institucional e atualização completa do Lattes2 a 3 horas
Mês 2Mapear recortes que viram artigo, com um parágrafo de descrição cadaMeia tarde
Mês 3Responder as quatro perguntas e decidir sobre o livro. Se sim, enviar para análise1 hora, mais a conversa com a editora
Menos de um dia de trabalho somado, distribuído em três meses. É o que separa uma pesquisa que circula de uma que fica no repositório.

O que fazer com a relação com o orientador

É um assunto que raramente aparece em guia nenhum, e que costuma pesar mais do que a parte burocrática.

Depois da defesa a relação muda de natureza. Deixa de haver hierarquia formal, prazo compartilhado e obrigação institucional. O que sobra é o que vocês construírem, e isso não acontece sozinho.

Três movimentos ajudam nessa transição, e todos partem de você.

  • Mande um e-mail de agradecimento com alguma substância. Não a mensagem protocolar do dia da defesa, mas uma que diga o que mudou no seu jeito de pensar
  • Compartilhe os planos: se vai publicar, se vai submeter artigo, se vai prestar concurso. Orientador costuma querer saber, e raramente pergunta
  • Convide para coautoria quando fizer sentido de verdade. Em artigo derivado da tese, é comum e é justo. Em livro autoral, depende da contribuição real

Quem some depois da defesa perde um dos interlocutores mais bem informados sobre o próprio trabalho. E quem some sem avisar costuma sentir constrangimento em voltar depois, o que torna o silêncio permanente.

Se você já passou dos 90 dias

A maior parte das pessoas que lê isso já passou, e não há problema nenhum.

O roteiro continua valendo, só que fora de ordem. Confira o depósito, atualize o Lattes, organize o arquivo. Se a defesa foi há menos de três anos, provavelmente o texto ainda está atual o bastante para uma adaptação simples.

Se foi há mais tempo, comece pela leitura crítica: pegue a introdução e a conclusão, leia como se fosse de outra pessoa, e anote o que hoje você escreveria diferente. Essa leitura já indica quanto trabalho de atualização existe pela frente.

E se a conclusão for que a atualização é grande demais, considere um caminho diferente: em vez de publicar a tese, escrever uma obra nova que retome o tema com o que você sabe hoje. Costuma dar menos trabalho do que remendar, e o resultado é melhor.

O que fazer com os dados da pesquisa

É a parte que menos gente organiza e a que mais custa recuperar depois.

Enquanto a tese estava em andamento, os dados viviam na sua máquina, em planilhas que só você entendia, com nomes de arquivo que faziam sentido no contexto daquela semana. Passados seis meses, nem você entende mais.

Uma hora de organização agora evita um dia de arqueologia depois, e viabiliza duas coisas que você provavelmente vai querer: publicar artigo derivado e atender pedido de outro pesquisador.

  • Junte planilhas, transcrições, saídas de software e scripts em uma pasta só
  • Escreva um arquivo de texto simples explicando o que é cada arquivo e como foram gerados
  • Anote a versão do software usado, porque isso muda resultado e ninguém lembra depois
  • Verifique o que o seu termo de consentimento permite compartilhar, se houve pesquisa com pessoas
  • Guarde em nuvem, além do computador

O segundo item é o que faz diferença. Um parágrafo por arquivo, escrito enquanto você ainda lembra, transforma uma pasta ilegível em um conjunto de dados utilizável.

A parte que ninguém coloca no calendário

Existe um assunto que não cabe em roteiro de tarefas e que afeta a execução de todas elas.

Terminar uma tese cobra um preço, e ele costuma ser pago depois. Muita gente relata cansaço que não passa com descanso, dificuldade de ler qualquer coisa por prazer, irritação com o próprio texto, sensação de vazio no lugar do alívio esperado.

Isso é comum o bastante para ter nome informal no meio acadêmico, e raro o bastante de ser dito em voz alta para que cada pessoa ache que é só com ela.

Vale saber de três coisas.

  • Passa, e costuma passar em algumas semanas ou poucos meses
  • Não é indicador de que a escolha pela pesquisa foi errada
  • Se estiver durando muito ou atrapalhando o funcionamento cotidiano, é caso de procurar ajuda profissional, e a maioria das universidades tem serviço de apoio para discente e egresso

O efeito prático no calendário

Se você está nesse estado, não force as decisões do mês 3. Cumpra o que tem prazo, que é o depósito, e adie o resto por algumas semanas sem culpa.

Decisão sobre publicação tomada em exaustão tende a ser a mais fácil, não a melhor. E a mais fácil, quase sempre, é não decidir.

Se você vai continuar na carreira acadêmica

Há um conjunto adicional de coisas que valem os mesmos 90 dias, e que ficam mais caras se deixadas para depois.

O que fazerPor quê
Atualizar ORCID e Google AcadêmicoSão pedidos em submissão e em edital, e vincular tudo depois dá trabalho
Mapear os editais recorrentes da sua áreaQuase todos abrem na mesma época do ano, e saber isso muda o planejamento
Ler a tabela de títulos de um concurso recenteEla diz exatamente que produção vale ponto na carreira que interessa a você
Verificar prazo de pós-doutoradoVários programas exigem defesa recente, e o relógio corre desde a data da defesa
Manter contato com quem esteve na sua bancaSão os pesquisadores mais bem informados sobre o seu trabalho fora do seu orientador

A quarta linha pega muita gente. Editais de pós-doutorado e de programas de jovem pesquisador costumam ter limite de tempo desde a titulação, e ele conta a partir da defesa, não da colação.

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Vinicius Augusto de Souza

Vinicius Augusto de Souza

Editor · Editora Sorian

Vinicius acompanha autores na Editora Sorian, da primeira conversa sobre o original até o livro em circulação. Passa o dia falando com mestres, doutores e pesquisadores de todo o país, e é dessas conversas que sai o que ele escreve aqui: as dúvidas que se repetem sobre avaliação e prazo, as armadilhas do mercado editorial acadêmico, e o que muda de concreto quando uma pesquisa deixa o repositório e vira livro publicado.

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