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Como funciona

Qualis Livros na prática: como a CAPES avalia um livro e por que editora não tem Qualis

A CAPES classifica livros de L1 a L5 dentro da avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação, por meio de comissões de área. A nota é da obra. Editora nenhuma recebe estrato, e por isso a promessa de selo Qualis não existe no sistema real, por mais que apareça em anúncio.

Vinicius Augusto de SouzaVinicius Augusto de Souza28 de julho de 202614 min de leitura
Neste guia · 16 tópicos

De onde veio a confusão

O Qualis foi criado para uso interno da CAPES. Era um instrumento de comparação entre programas de pós-graduação, nada além disso.

Com o tempo ele escapou. Editais de concurso começaram a citá-lo, coordenações passaram a tratá-lo como meta, e o mercado editorial percebeu que ali havia uma palavra com poder de venda. O passo seguinte foi previsível: apareceu gente anunciando editora com Qualis.

A confusão pegou porque a maioria dos autores nunca precisou entender o mecanismo. Você defende, alguém diz que o livro precisa ser Qualis, e você sai procurando quem oferece. Só que o que está sendo oferecido não é o que o nome diz.

Vale dizer que nem sempre há má-fé. Muita gente que trabalha com publicação acadêmica repete a expressão sem ter parado para ler como o sistema funciona. O problema é que o efeito prático é o mesmo: alguém paga esperando uma coisa e recebe outra.

O que a CAPES avalia, afinal

A CAPES não avalia livros soltos no mundo. Ela avalia programas de pós-graduação, em ciclos que hoje são quadrienais, e dentro dessa avaliação analisa a produção intelectual que cada programa informou no período.

Isso muda tudo, e é o ponto que quase nunca aparece nos anúncios. A unidade avaliada é o programa. A produção entra como um dos elementos que compõem a nota dele. O livro é analisado porque foi declarado por um programa, dentro do coleta anual, e não porque alguém o submeteu para receber um selo.

Existe uma consequência direta disso para quem publica. Se você não é docente credenciado em um programa de pós-graduação, e a sua obra não foi informada por nenhum, ela simplesmente não entra na avaliação. Não recebe estrato, não porque seja ruim, mas porque não estava no escopo.

Um livro excelente pode nunca receber estrato Qualis. Isso não diz nada sobre a qualidade dele, e não reduz em nada o valor que ele tem no Lattes e em edital de concurso.

Como a classificação acontece

Cada grande área tem uma comissão formada por pesquisadores do próprio campo. É essa comissão que define os critérios que valem ali e os aplica à produção declarada.

A escala vai de L1, o estrato mais alto, a L5. O que separa um nível do outro varia entre áreas, porque a cultura de publicação varia. Um livro de 400 páginas em História e um de 120 em Engenharia de Produção não são comparáveis pela mesma régua, e o sistema reconhece isso ao descentralizar a decisão.

O encadeamento completo fica assim:

  • O autor publica a obra por uma editora, com registros e parecer
  • O programa de pós-graduação informa essa produção no coleta
  • A comissão de área avalia a obra dentro da avaliação quadrienal
  • O estrato atribuído entra no conjunto que compõe a nota do programa

Onde a editora entra, e onde não entra

Repare que em nenhum dos quatro passos acima a editora aparece como sujeito avaliado. Ela aparece como meio: é por ela que a obra ganha registro, parecer e forma publicável.

Isso não quer dizer que a escolha da editora seja irrelevante. Ela é bastante relevante, e por um motivo concreto: metade dos critérios que a comissão observa depende de decisões editoriais. A outra metade é do autor.

CritérioDepende deDá para verificar antes?
Originalidade da contribuiçãoAutorNão
Rigor metodológicoAutorNão
Consistência da argumentaçãoAutorNão
Revisão bibliográfica atualizadaAutorNão
Relevância para a áreaAutor e temaParcialmente
Existência de conselho editorialEditoraSim
Processo de avaliação do originalEditoraSim
ISBN registradoEditoraSim
Ficha catalográficaEditoraSim
Índice remissivoEditoraSim
Qualidade da edição e do projeto gráficoEditoraSim
Seis dos onze itens são verificáveis antes de você contratar. Os outros cinco são o seu trabalho.

Por que a promessa de selo não se sustenta

Uma editora que garante estrato está garantindo o resultado de uma avaliação que ainda não aconteceu, feita por pessoas que ela não conhece, sobre um texto que ela não escreveu, dentro de um ciclo cuja data de conclusão ela não controla.

Formulado assim, fica evidente. Formulado como anúncio, com selo dourado e a sigla CAPES ao lado, engana bastante gente.

Existe uma variação mais sutil dessa promessa, e ela merece atenção porque soa razoável. É quando a editora diz que atende ao padrão Qualis L1 e L2. A frase dá a entender que existe um padrão publicado, com requisitos objetivos, e que a casa cumpre a lista. O que existe são critérios amplos, aplicados com julgamento por comissões diferentes em cada área.

Uma editora pode dizer com honestidade que entrega conselho editorial, parecer registrado, ISBN próprio, ficha catalográfica, índice remissivo e edição cuidada. Tudo isso é verdade e é verificável. O que ela não pode dizer é que isso resulta em L1.

O que muda na prática para quem vai publicar

Se você chegou até aqui, a pergunta natural é: então o Qualis importa ou não importa para mim?

Depende de quem você é dentro do sistema.

Se você é docente credenciado em programa de pós

Importa, e bastante. A sua produção entra no coleta do programa e compõe a nota dele. Vale conversar com a coordenação antes de publicar, porque cada área tem preferências e o documento de área traz orientações que ajudam a decidir entre livro, capítulo e artigo.

Se você é doutor sem vínculo com programa

O Qualis é secundário no seu caso. O livro continua contando como produção bibliográfica no Currículo Lattes e continua pontuando em prova de títulos, conforme a tabela de cada edital. O estrato só entraria na conta se algum programa informasse a obra, o que não vai acontecer se você não está credenciado.

Isso costuma ser uma boa notícia, porque tira o peso de uma decisão que nunca esteve nas suas mãos.

Se você acabou de defender o mestrado

O caminho é publicar bem e registrar no Lattes. Estrato Qualis não é um objetivo perseguível diretamente por quem está saindo do mestrado, e correr atrás dele com quem promete atalho costuma custar caro.

Onde consultar a classificação

A consulta é feita pela Plataforma Sucupira, para períodos avaliativos já concluídos. Aqui aparece uma diferença importante entre os dois sistemas.

O Qualis Periódicos tem lista pública e navegável: dá para procurar uma revista e ver o estrato dela por área. O Qualis Livros não funciona assim. A avaliação de livros é feita dentro do processo de cada programa, e não gera uma lista aberta de obras classificadas que qualquer pessoa possa consultar por título.

Quem promete mostrar o certificado de estrato da sua obra está prometendo um documento que o sistema não emite nesse formato.

As perguntas certas para fazer a uma editora

Se a promessa de Qualis sai da conversa, o que sobra para avaliar? Sobra bastante, e tudo verificável em meia hora.

  • Quem compõe o conselho editorial? Peça nomes, titulação e instituição, e confira dois ou três no Currículo Lattes
  • O parecer sobre o meu original virá por escrito?
  • O ISBN será registrado em nome da editora ou no meu nome?
  • A obra sai com ficha catalográfica? Quem elabora?
  • Haverá DOI? Por qual agência registradora?
  • Onde encontro o catálogo, e as obras estão à venda em algum canal?
  • Vocês já recusaram originais?

A sétima pergunta costuma ser a mais reveladora. Editora científica recusa originais com regularidade, e não tem problema nenhum em dizer isso.

Um caso comum, e como ele termina

O padrão se repete com frequência suficiente para valer a descrição.

Alguém defende a dissertação, procura por publicação em livro e encontra um anúncio com a palavra Qualis em destaque. O valor é compatível com o mercado, o atendimento é rápido, o contrato chega em dois dias. A obra sai bonita, impressa, com o nome da pessoa na capa.

Meses depois vem o edital do concurso. Na prova de títulos, a comissão pede comprovação da publicação. E aí aparecem as perguntas que ninguém fez antes: o ISBN está em nome de quem? Existe ficha catalográfica? Há registro de parecer editorial? A editora tem catálogo?

Quando as respostas são desfavoráveis, não há o que fazer no prazo do edital. O dinheiro foi gasto, o tempo passou, e a produção não conta como se esperava.

Não é um desfecho inevitável. Ele depende quase inteiramente de sete perguntas feitas antes, e não depois.

O que os documentos de área dizem sobre livros

Cada área de avaliação da CAPES publica um documento próprio, e é ali que estão as regras que valem para quem trabalha naquele campo. Vale a leitura, porque o que se ouve em conversa de corredor costuma ser uma versão simplificada e às vezes errada.

Alguns padrões se repetem entre áreas, e conhecê-los ajuda a decidir onde investir esforço.

O primeiro é a distinção entre livro autoral, coletânea organizada e capítulo. Os três contam, com pesos diferentes. Livro de autoria única costuma ter o peso mais alto por unidade. Organização de coletânea reconhece um trabalho intelectual próprio, o de reunir e articular contribuições. Capítulo pesa menos por unidade, mas permite acumular.

O segundo é a exigência de vínculo temático. Produção fora da área de concentração do programa tende a pesar menos, ou a ser desconsiderada. Isso costuma pegar de surpresa quem publicou sobre um tema lateral ao próprio doutorado.

O terceiro é a atenção à editora. Não no sentido de estrato, que não existe, mas no sentido de existir uma casa editorial identificável, com conselho e catálogo. Obra sem editora reconhecível levanta dúvida sobre ter havido avaliação prévia.

Livro, capítulo ou artigo: como as áreas se dividem

A pergunta sobre onde investir tempo aparece cedo na carreira e quase nunca tem resposta única. O padrão que se observa nos documentos de área é o seguinte.

Grande áreaFormato de maior pesoPapel do livro
Ciências HumanasLivro e capítuloCentral. É onde argumento longo cabe e onde a área registra contribuição de fôlego
Ciências Sociais AplicadasLivro e artigo, conforme a subáreaAlto. Direito e Administração usam bastante
Linguística, Letras e ArtesLivro e capítuloCentral
Ciências da SaúdeArtigo em periódicoComplementar. Livro conta, com peso menor
Ciências Exatas e da TerraArtigo em periódicoSecundário, salvo em obra de referência
EngenhariasArtigo e produção técnicaSecundário
Ciências AgráriasArtigo em periódicoComplementar
Padrão observado. A regra que vale para você é a do documento da sua área e a do edital que vai avaliar você.

Essa tabela não diz que livro é inútil em Exatas ou Saúde. Diz que, na disputa por peso relativo dentro daquela área, o artigo costuma ganhar. Um livro de referência em Engenharia pode ter impacto de carreira enorme, ainda que não seja o formato que a régua privilegia.

O que fazer com essa informação

A boa notícia é que a lista de coisas verificáveis é curta e não exige conhecimento técnico. Meia hora de conferência resolve a maior parte dos casos, e evita a conversa desagradável na hora da prova de títulos.

A notícia menos boa é que ninguém vai fazer isso por você. Editora séria responde tudo sem hesitar, mas a pergunta precisa partir de quem contrata.

  • Pare de procurar editora com Qualis, porque isso não existe
  • Leia o documento da sua área de avaliação, que é público
  • Leia a tabela de títulos do edital que interessa a você
  • Procure editora com conselho editorial verificável e parecer escrito
  • Confirme em nome de quem o ISBN será registrado
  • Exija ficha catalográfica e pergunte sobre DOI
  • Se você é docente credenciado, converse com a coordenação do programa antes de decidir o formato

Cinco mitos que circulam sobre o Qualis

"A CAPES credencia editoras"

Não credencia, não homologa e não mantém lista de editoras autorizadas. A agência avalia programas de pós-graduação e a produção que eles declaram. Qualquer editora que se apresente como credenciada pela CAPES está descrevendo um vínculo que não existe.

"Livro sem Qualis não vale nada"

Vale, e bastante. Livro publicado com ISBN, ficha catalográfica e editora identificada entra como produção bibliográfica no Currículo Lattes, e é isso que a prova de títulos de concurso examina. O estrato Qualis serve à avaliação do programa de pós, que é outro contexto e envolve outras pessoas.

Quem confunde os dois acaba pagando caro por uma promessa que não muda nada no que realmente vai ser avaliado no seu caso.

"Dá para consultar o Qualis do meu livro"

Não do jeito que se consulta o de um periódico. O Qualis Periódicos tem lista pública navegável por título de revista. O de livros é aplicado dentro da avaliação de cada programa e não gera catálogo aberto de obras com estrato.

"Publicar por editora grande garante estrato melhor"

O porte da editora não é critério. A existência de conselho editorial, de processo de avaliação e de registros é. Uma editora pequena com processo sério entrega tudo o que a comissão observa do lado editorial, e uma editora grande sem parecer registrado não entrega.

"O estrato é permanente"

A classificação é feita por ciclo avaliativo, e os critérios de cada área são revistos entre um ciclo e outro. Estrato de um período não vale automaticamente para o seguinte, e comparar notas de ciclos diferentes leva a conclusão errada.

Como conferir uma editora em trinta minutos

Vale descrever o roteiro, porque ele é simples e quase ninguém faz.

Comece pelo catálogo. Peça o endereço, abra e escolha três obras ao acaso. Procure cada uma pelo título em um canal de venda qualquer. Se as três aparecem, a editora coloca livro em circulação de verdade. Se nenhuma aparece, você acabou de aprender algo importante.

Depois vá ao conselho editorial. Peça a lista com nome, titulação e instituição. Escolha dois nomes e procure no Currículo Lattes. Um conselho real tem gente real, com vínculo real, e nada disso é segredo.

Por último, peça um exemplar em PDF de qualquer obra publicada e olhe as primeiras páginas. A ficha catalográfica está lá? O ISBN aparece? Em nome de quem? Existe menção a parecer editorial?

Trinta minutos, três verificações, nenhuma delas técnica. É menos tempo do que se gasta escolhendo a fonte da capa.

E se eu já publiquei em uma editora que prometeu Qualis

Primeiro: respire. Na maior parte dos casos a situação é bem menos grave do que parece na hora em que a ficha cai.

O que importa não é a promessa que foi feita, é o que a obra tem. Pegue o seu exemplar e verifique quatro coisas: existe ISBN, e em nome de quem; existe ficha catalográfica; a editora aparece identificada na folha de rosto; e há catálogo público onde a obra conste.

Se as quatro respostas forem positivas, você tem uma publicação por editora, com registro, e ela conta como produção bibliográfica no Lattes. A promessa de estrato era vazia, mas o produto entregue serve.

Se o ISBN estiver em seu nome, o que você tem é autopublicação. Ela continua sendo publicação e continua entrando no Lattes, com a natureza correta declarada. O que muda é como uma banca lê, e vale saber disso antes da prova de títulos, não durante.

Se faltar ficha catalográfica, dá para providenciar depois em uma segunda edição revista, que recebe novo ISBN. É trabalho, mas é caminho.

Na dúvida sobre o que você tem em mãos, mande a folha de rosto e a página de créditos do seu livro para qualquer editora séria. Ler isso leva dois minutos e ninguém cobra por essa resposta.

O que a Sorian faz, e o que não faz

A gente entrega a metade que é responsabilidade de editora: parecer de conselho editorial, revisão por pares, ISBN físico e digital em nome da casa, DOI, ficha catalográfica, índice remissivo e edição cuidada. Isso está no contrato e é conferível.

A gente não promete estrato Qualis, porque nenhuma editora pode prometer. Não promete aprovação em concurso, porque isso depende de edital e de banca. E não promete pontuação específica, porque cada edital tem a própria tabela.

Se em algum momento você ouvir alguém da nossa equipe dizendo o contrário, é erro, e vale nos avisar.

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Vinicius Augusto de Souza

Vinicius Augusto de Souza

Editor · Editora Sorian

Vinicius acompanha autores na Editora Sorian, da primeira conversa sobre o original até o livro em circulação. Passa o dia falando com mestres, doutores e pesquisadores de todo o país, e é dessas conversas que sai o que ele escreve aqui: as dúvidas que se repetem sobre avaliação e prazo, as armadilhas do mercado editorial acadêmico, e o que muda de concreto quando uma pesquisa deixa o repositório e vira livro publicado.

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