
Por que a conta não fecha
O problema quase nunca é má-fé. É que orçamento de publicação descreve o serviço editorial, e boa parte do que o autor gasta acontece fora dele.
A editora cotou revisão, diagramação, capa, registros e tiragem. Está tudo certo e está tudo lá. Mas o autor também vai pagar para receber os exemplares em casa, vai querer mais alguns para banca e biblioteca, vai lembrar de uma correção depois que o arquivo já foi para a gráfica, e daqui a um ano vai precisar de mais dez livros para um concurso.
Nada disso estava na proposta porque nada disso é serviço editorial. E é justamente por isso que precisa ser perguntado antes.
Os cinco itens que mais faltam
| Item | Costuma estar no orçamento? | Quando aparece |
|---|---|---|
| Frete dos exemplares de autor | Raramente | Na hora da entrega |
| ISBN da versão digital | Às vezes, quando o e-book é opcional | Ao decidir publicar em digital também |
| Exemplares além da cota do contrato | Não, é compra à parte | Antes da banca ou do concurso |
| Alteração depois do arquivo fechado | Não, e costuma ser cobrada por hora | Na última leitura antes da gráfica |
| Reimpressão | Não, é novo pedido | Meses depois, quando acabam os exemplares |
Frete: o item mais esquecido
Livro é pesado. Uma caixa com trinta exemplares de um livro de duzentas páginas passa dos dez quilos, e o frete acompanha o peso e a distância.
Para autor que mora perto da gráfica, é despesa pequena. Para quem está em outra região, pode ser um valor que muda a percepção do orçamento inteiro.
A pergunta a fazer é direta: o frete até o meu endereço está incluído no preço, e se não está, quanto custa. Vale informar o CEP na hora de pedir a proposta, porque sem isso ninguém consegue responder.
Se você vai receber exemplares em mais de um endereço, avise antes. Dividir uma remessa em duas costuma custar mais do que o dobro de uma.
ISBN digital: um registro, dois formatos
Impresso e digital são registros diferentes. Um livro publicado nos dois formatos tem dois ISBN, e isso é regra, não escolha da editora.
Quando a proposta cotou só o impresso, o registro da versão digital pode entrar como adicional. O valor costuma ser modesto, mas a implicação não é.
Sem ISBN próprio, o e-book não entra nos canais de distribuição digital e não é catalogado como obra autônoma. Quem pretende ter o livro disponível em loja online precisa desse registro, e é melhor descobrir isso antes de fechar do que depois.
- Pergunte se o e-book está incluído ou é opcional
- Se é opcional, pergunte o valor com o ISBN digital já dentro
- Confirme em nome de quem cada um dos dois registros sai
- Pergunte quais canais recebem a versão digital, e em quanto tempo
Exemplares de autor: quantos você vai precisar de verdade
Todo contrato define uma cota de exemplares que vai para o autor. O número varia bastante entre editoras, e quase sempre é menor do que a necessidade real.
Vale fazer a conta antes, porque ela é fácil e quase ninguém faz.
| Destino | Quantidade típica |
|---|---|
| Orientador, coorientador e banca | 4 a 6 |
| Biblioteca da instituição de origem | 1 a 2 |
| Depósito legal e registros obrigatórios | conforme a editora |
| Colegas do grupo de pesquisa | 3 a 8 |
| Família | 5 a 15, e este é o item mais subestimado |
| Prova de títulos e processos seletivos | 1 por processo |
| Lançamento, se houver | 20 a 50 |
Some a sua conta antes de assinar e compare com a cota do contrato. Comprar exemplares na mesma tiragem custa menos que pedir uma reimpressão depois.
Alteração depois do arquivo fechado
Este é o item que mais gera atrito, e o único da lista que dá para eliminar por completo.
Existe um momento no processo em que o arquivo é fechado e vai para a gráfica. Antes desse momento, correção é parte do trabalho e não custa nada. Depois, qualquer mudança implica refazer diagramação, gerar novo arquivo e, dependendo do estágio, refazer a prova.
O autor costuma não perceber quando esse momento chega. Aprova o PDF final no meio de uma semana corrida, e três dias depois lembra que o nome de um membro da banca está grafado errado no agradecimento.
Como evitar
Trate a aprovação do arquivo final como um compromisso de agenda, não como um e-mail a responder. Reserve duas horas, imprima se puder, e leia com atenção específica aos nomes próprios, à ficha catalográfica e aos dados de titulação.
Peça a alguém que não trabalhou no texto para conferir só os nomes. Quem escreveu o livro lê o que quis escrever, não o que está escrito.
O que perguntar antes
Em que momento exato o arquivo é considerado fechado, quantas rodadas de revisão estão incluídas e como é cobrada uma alteração depois disso.
Editora que responde essas três com clareza está sinalizando processo organizado. Editora que responde com evasiva provavelmente vai cobrar caso a caso, e o caso vai ser o seu.
Reimpressão: o custo que chega um ano depois
Acabaram os exemplares, saiu um edital, você precisa de mais quinze livros. É aqui que a maioria dos autores descobre como funciona.
Reimpressão é pedido novo, com custo de produção próprio. O arquivo já existe, então não há revisão nem diagramação para pagar de novo, mas há tiragem, e tiragem pequena custa caro por unidade.
A pergunta a fazer no momento do contrato é sobre a tiragem mínima de reimpressão e o prazo. Saber que o mínimo é de cinquenta exemplares muda a decisão sobre quantos imprimir na primeira vez.
Impressão sob demanda resolve isso para muita gente: você pede a quantidade que precisa, quando precisa. Pergunte se a editora trabalha nesse modelo antes de decidir a tiragem inicial.
Comparando duas propostas de verdade
Com esses cinco itens em mãos, a comparação entre editoras muda de figura. Uma proposta que parecia cara pode estar incluindo o que a outra vai cobrar depois.
Monte uma planilha com uma linha por item e uma coluna por editora. Não precisa de nada sofisticado: o valor está em ver os buracos.
| Linha da planilha | O que preencher |
|---|---|
| Preço fechado da proposta | O número que veio no orçamento |
| Exemplares incluídos | Quantidade da cota contratual |
| Frete até o seu CEP | Valor, ou incluído |
| ISBN impresso e digital | Ambos inclusos, ou o adicional |
| Exemplares extras que você vai querer | Quantidade × valor unitário |
| Rodadas de revisão incluídas | Número, e o custo da rodada extra |
| Tiragem mínima de reimpressão | Quantidade e prazo |
| Total real | A soma, que é o número que interessa |
As perguntas, prontas para copiar
Mande por e-mail, para todas as editoras que estiver considerando, e compare as respostas por escrito. Leva cinco minutos e é a melhor hora que você vai investir no processo.
- O orçamento inclui o frete dos exemplares até o meu endereço? Meu CEP é este
- Quantos exemplares de autor estão incluídos, e qual o valor do exemplar adicional na mesma tiragem?
- O ISBN da versão digital está incluído? E em nome de quem os dois registros são emitidos?
- Quantas rodadas de revisão estão incluídas, em que momento o arquivo é fechado e como é cobrada alteração depois disso?
- Qual a tiragem mínima e o prazo de uma reimpressão? Vocês trabalham com impressão sob demanda?
- Existe algum outro custo previsível que não esteja neste orçamento?
A última pergunta é a mais reveladora. Editora organizada responde com uma lista. Quem responde apenas que não existe custo nenhum costuma não ter pensado no assunto.
O que isso não significa
Nada disso é motivo para desconfiar de quem cotou apenas o serviço editorial. Esse é o padrão do mercado, e é razoável: a editora orça o que ela faz.
O ponto é outro. Publicar tem um custo total que só o autor consegue somar, porque só ele sabe quantos exemplares vai querer e para onde eles vão. Fazer essa soma antes evita a sensação de que o preço mudou no meio do caminho, quando na verdade ele só estava incompleto.
E há um efeito colateral bom: quem chega com essas perguntas na primeira conversa costuma receber uma proposta mais detalhada do que quem só pergunta quanto custa.
Custos que dependem do seu material
Há uma segunda família de custos que não aparece em orçamento nenhum porque depende do que você entrega. A editora não pode prever, e o autor não sabe que precisa perguntar.
Imagens sem resolução suficiente
Figura que ficou boa na tela do computador pode não servir para impressão. O critério é resolução na dimensão final, e gráfico exportado de planilha costuma ficar abaixo.
Quando isso acontece, alguém precisa refazer. Se o arquivo original ainda existe, é trabalho seu e custa tempo. Se não existe, é redesenho, e aí custa dinheiro.
Vale conferir isso antes de enviar: abra cada figura em tamanho real e veja se o texto dentro dela continua nítido.
Autorização de uso de imagem de terceiro
Figura retirada de outra publicação precisa de autorização do detentor dos direitos para ser reproduzida em obra comercial. Em tese depositada, o uso costuma ser tolerado como citação acadêmica. Em livro à venda, a situação é outra.
Obter autorização leva tempo e às vezes custa. A alternativa é redesenhar a figura com os próprios dados, citando a fonte, o que resolve na maior parte dos casos.
Tabelas longas e fórmulas
Diagramação de tabela que atravessa páginas e de notação matemática é trabalho especializado, e algumas editoras cobram à parte por isso.
Se o seu trabalho tem muito desse material, mencione na hora de pedir orçamento. Proposta feita sem essa informação vai ser revista depois, e revisão de proposta no meio do processo é sempre desconfortável.
Índice remissivo
Raramente está incluído, e muita gente descobre que queria um só quando vê o livro pronto. É item valorizado em obra de referência e praticamente ausente em obra derivada de tese.
Se você quer, peça na cotação. Fazer depois significa refazer a paginação inteira.
Antes de pedir qualquer orçamento, separe o arquivo do texto e a pasta de figuras em alta resolução. Editora que recebe material organizado cota melhor, e você evita a revisão de proposta no meio do caminho.
Formas de pagamento e o que perguntar sobre elas
O valor total importa, e o fluxo de pagamento importa quase tanto para quem precisa encaixar a despesa no orçamento pessoal.
O que costuma existir no mercado:
- Parcelamento em cartão, com ou sem juros conforme o número de vezes
- Pagamento por etapa, atrelado à entrega de cada fase do processo
- Entrada e saldo na aprovação do arquivo final
- Desconto para pagamento à vista
Pagamento por etapa merece atenção
É o modelo mais protetor para o autor, porque cada parcela está vinculada a uma entrega verificável. Se algo travar, você não pagou o que ainda não recebeu.
Peça que as etapas estejam nomeadas no contrato, com o que caracteriza a conclusão de cada uma. Etapa descrita como produção não significa nada. Etapa descrita como entrega do PDF diagramado para aprovação significa.
Sobre financiamento institucional
Vale conferir se o seu programa, departamento ou grupo de pesquisa tem rubrica de apoio à publicação. Existe com mais frequência do que se imagina, e costuma ser subutilizada porque ninguém pergunta.
Projeto com financiamento de agência de fomento às vezes prevê recurso para divulgação de resultado, e publicação de livro pode se enquadrar. A regra varia por edital, e a coordenação do projeto é quem sabe.
Se for esse o caso, avise a editora antes de fechar. Compra institucional exige nota fiscal com dados específicos, às vezes empenho, e o processo tem prazo próprio.

Editor · Editora Sorian
Vinicius acompanha autores na Editora Sorian, da primeira conversa sobre o original até o livro em circulação. Passa o dia falando com mestres, doutores e pesquisadores de todo o país, e é dessas conversas que sai o que ele escreve aqui: as dúvidas que se repetem sobre avaliação e prazo, as armadilhas do mercado editorial acadêmico, e o que muda de concreto quando uma pesquisa deixa o repositório e vira livro publicado.
Ver todos os artigos de Vinicius